segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Resenha: Entre o Trem e a Plataforma


Laura é uma mulher prestes a completar 30 anos. Vive presa à rotina e escapa para o mundo da fantasia dentro de sua cabeça, onde consegue ser feliz. Por recomendação médica, começa a escrever diários e, no metrô, cria suas histórias, misturando realidade e ficção.

Entre o trem e a plataforma” é o primeiro romance de Lucimar Mutarelli, esposa do escritor Lourenço Mutarelli. Descobri o livro fuçando no site da Amazon. Li a sinopse, fiquei curiosa e aproveitei uma daquelas promoções de e-books para comprar. A escrita é ágil e construída com frases curtas que nos jogam na mente confusa e vertiginosa de Laura. Às vezes não é possível saber se o que estamos lendo se refere à vida real da protagonista ou a alguma personagem inventada por ela em seus cadernos. Tudo isso se justifica, já que se trata de uma mulher com sérios problemas psicológicos.

Pela ótica de Laura, o mundo é um grande jogo cheio de regras que ela tenta seguir mas não consegue, e, por isso, é sempre repreendida por suas falhas. Ela procura se enquadrar no que esperam dela de todas as formas: trabalha como datilógrafa para seguir os passos das irmãs mais velhas (mesmo sabendo que seu trabalho burocrático é um tanto ultrapassado), se esforça para ganhar pontos nas interações sociais forçadas com os colegas de trabalho, está constantemente preocupada em não desapontar a mãe (que, aliás, tem um papel significativo dos distúrbios mentais da filha), a chefe, o médico...

Em seus cadernos, Laura usa todo seu conhecimento de filosofia novelística para relatar sua suposta rotina nos textos que escreve para o seu psiquiatra, enquanto em um outro volume cria sua vida perfeita ao lado do seu objeto de desejo: o moço de sorriso bonito que ela vê constantemente no metrô. Assim como em suas viagens pelo subterrâneo da cidade, Laura vive em uma eterna suspensão, dividida entre seus sonhos e o desejo de seguir em frente com sua vida (o trem) e a segurança de uma existência tediosa e friamente calculada (a plataforma).

“Laura enxergava somente o sonho. Via o que queria ver.
Sentia o que precisava, mas, na semana anterior, quando tentou se dirigir ao rapaz do metrô, finalmente entendeu que nada aconteceria.
Sua história já havia acabado.
Estava escrita. Predeterminada.
Carimbada, assinada e autenticada em três vias.
Três vias tristes”.

Leitura rápida e interessante, que nos faz pensar em como levamos nossa própria vida. Recomendo.

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