terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Resenha: O retorno do nativo


Um casamento que não se concretiza. Uma noiva voltando para casa escondida na carroça de um amigo. Um sujeito estranho com a pele tingida de vermelho. Um homem comprometido com uma jovem, mas apaixonado por outra. Uma moça sonhadora e com fama de bruxa que detesta a paisagem bucólica da charneca e sonha com a agitação de Paris. Um rapaz viajado e bem-sucedido nos negócios que decide abandonar tudo e retorna para sua terra natal com um audacioso e polêmico projeto de levar educação à população rural. ‘O retorno do nativo’ é um clássico inglês que tem romance, suspense, comédia, tragédia, filosofia. E, o mais importante, envolve do começo ao fim.

'O retorno do nativo' começou a ser escrito em 1876 e foi publicado em 1878. O editor da revista Cornhill, que havia publicado em 1874 ‘Longe deste insensato mundo’ em fascículos, rejeitou a primeira versão da história porque temia que o triângulo amoroso apresentado pudesse escandalizar os leitores da época. Thomas Hardy, então, fez alguns ajustes, mas não eliminou a relação dos três personagens, e publicou em outra revista. E ainda desenhou, ele mesmo, o mapa da fictícia Egdon Heath, que acompanhou tal edição.

Um mapa de Egdon Heath

Egdon Heath é uma mistura de várias paisagens inglesas e enfatiza a ligação entre as pessoas, o ambiente em que vivem e sua cultura. É um local de clima inclemente, isolado dos demais povoados, o que contribui para a sensação de que eles viviam congelados no tempo, sem notícias do que acontecia no mundo, sem saber dos avanços da ciência e da tecnologia, sem se preocupar com as grandes transformações da sociedade. Esse isolamento também faz com que velhas tradições sejam mantidas e antigas lendas continuem vivas, enchendo o ar de misticismo, que é ainda mais reforçado pelos sons assustadores, pela escuridão, pela névoa, pelos ventos fortíssimos.

É nesse ambiente que se desenrola a trama. Eustacia Vye é a jovem forasteira que vai morar com o avô na região depois que seu pai morre. Acostumada a viver na cidade grande, jamais se adapta à morosidade do campo. Melancólica, ela vive sonhando em voltar à civilização, dá longos passeios solitários pela charneca à noite, é impetuosa e atrevida. Seus cabelos negros e revoltos combinados com seus olhos escuros misteriosos e seu comportamento independente fazem com que ela seja considerada bruxa, principalmente depois que se envolve com Damon Wildeve, administrador da pousada da região e noivo de Thomasin, garota doce e tímida que mora com a tia, a Sra. Yeobright – esse envolvimento cancela o casamento de Wildeve e Thomasin quando eles já estavam no altar, causando grande vergonha para a pobre Thomasin.

Só que Eustacia acaba conhecendo um pretendente muito melhor, com mais chances de levá-la embora de Egdon Heath: Clym, filho da Sra. Yeobright, que volta para passar o natal com a mãe e a prima, mas decide ficar para montar uma escola no povoado. Ele é o nativo do título, e, como a resistente vegetação da charneca, ele se adapta a qualquer situação. Forma-se, então, o triângulo amoroso dos decepcionados entre Wildeve, Eustacia e Clym.

Outro personagem importante é o vendedor de almagre Diggory Vern, que também vive sua cota de rejeição por ser pobre e, ainda por cima, ter o corpo todo tingido de vermelho devido à sua profissão. Alguns personagens da aldeia o temem, pois acham que ele é o diabo em pessoa. Só que ele é um sujeito bom, que faz de tudo para ajudar a salvar a repuração de Thomasin, a noiva abandonada. Apesar de seu aspecto rude, ele é um cara muito inteligente e elabora grandes planos para atingir seus objetivos.

O livro tem personagens fortes que se agarram com unhas e dentes às suas crenças e vontades. Embora Clym possa ser considerado o protagonista, aquele que deixa para trás uma vida confortável e moderna para se dedicar à empreitada enorme de levar educação ao povo de sua aldeia natal, Eustacia é, sem dúvida, a personagem mais marcante. Ela se destaca por suas ações, por seu visual que não combina com a paisagem, por sua intensidade destrutiva. Sua importância, inclusive já é sinalizada na epígrafe, que traz um trecho do poema épico de John Keats intitulado ‘Endymion’, que resume o cerne da história de Hardy: um homem que se apaixona pela Tristeza, palavra que descreve, junto com seu sinônimo melancolia, usado muitas vezes no texto, a natureza de Eustacia. É ela quem altera tragicamente o destino de Clym, de Wildeve e da Sra. Yeobright ao tomar uma atitude drástica.

Thomas Hardy trata de vários assuntos neste livro, mas sua grande inspiração, que se realiza na figura de Clym, é o sistema de educação pública na Inglaterra, instituído em 1870. Antes, filantropos e religiosos educavam os mais pobres, enquanto os filhos da classe média ou alta iam para escolas ou eram educados em casa. A trama de ‘O retorno do nativo’ se desenrola entre 1840 e 1850, portanto antes da instituição desse sistema. Assim como o personagem Clym, o autor também iniciou seus estudos graças a uma entidade beneficente que promovia a instrução da camada menos privilegiada da sociedade, e depois sua mãe buscou outras escolas para aprimorar o aprendizado do filho. Também como Clym, ele teve a oportunidade de ir para a cidade grande trabalhar e estudar porque um vizinho o ajudou. No livro, ele contrapõe as discussões sobre a necessidade de educação formal apresentando, de um lado a defesa de conhecimento prático pelos trabalhadores braçais, e, de outro, a visão idealista da classe média.

Em geral, é uma história que prende a atenção até o fim, tanto pelo romance entre o trio principal quanto pelas discussões sobre educação, influência do ambiente, força das tradições e preconceito de classe. A história virou filme em 1994, com Catherine Zeta-Jones no papel de Eustacia e Clive Owen na pele de Wildeve. Assisti à adaptação enquanto traduzia o livro, porque queria saber logo como aquilo ia acabar, e achei tudo meio corrido e mal explicado. O desfecho, principalmente, me pareceu totalmente despropositado. No entanto, depois que finalizei o livro, percebi que tudo fazia sentido. Muitos acontecimentos cortados no filme eram importantes para entender o que fez os personagens agirem como agiram. Enfim.... leia o livro que vale mais a pena.

“O asceta mais extremo poderia pensar que tinha o direito inerente de vagar por Egdon – ele se manteria na linha de indulgência legítima ao abrir-se às influências como aquelas. Cores e belezas que até então estavam apagadas eram, ao menos, um direito inato a todos. Apenas nos dias de verão mais radiantes o humor do lugar chegava perto da alegria. A intensidade era mais comumente alcançada por meio do solene que do brilhante, e tal tipo de intensidade seguidamente chegava durante a escuridão, as tempestades e as névoas do inverno. E então Egdon despertava e demonstrava reciprocidade, pois o temporal era seu amante, e o vento seu amigo. Logo, tornou-se o lar de estranhos fantasmas; e descobriu-se que, até então, fora a origem desconhecida daquelas regiões selvagens e obscuras que vagamente parecem nos cercar nos sonhos de fuga e desastre que surgem à meia-noite, e que jamais são lembrados depois que acordamos, até que sejam revividos por cenas como essa.”

Nota: 4/5

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Este post faz parte do Desafio Volta ao Mundo em 80 Livros[Inglaterra]. Para ver a apresentação do projeto e a lista de títulos/resenhas, clique AQUI ou no banner na coluna à direita.

Um comentário:

lulunettes disse...

O Retorno do Nativo parece ser muito bom. Gostei bastante de suas impressões. Sua resenha também apresenta curiosidades que instigam ainda mais a leitura. Ah, parabéns pela tradução! Beijos, Michelle!