quinta-feira, 4 de maio de 2017

Leia o Livro, Veja o Filme: Novecentos / A Lenda do Pianista do Mar

LIVRO: Novecentos

Danny Boodmann T. D. Lemon Novecentos, um nome e tanto, não? Pois nenhum outro combinaria melhor com seu dono, nascido a bordo do navio Virginian na virada de 1899 para 1900, onde viveu 32 anos sem nunca botar os pés em terra firme. Inusitado. Além disso, ele também era capaz de descrever lugares que jamais conheceu como uma riqueza de detalhes que convencia qualquer um que já houvesse visitado tais localidades. Para completar o pacote, o moço também tocava piano como ninguém. Um mistério esse Novecentos. Uma lenda.

Li meu primeiro livro do Baricco, ‘Seda’, em 2015. Fiquei totalmente encantada com sua escrita enxuta e precisa, com sua prosa poética, com a força imagética de suas palavras. Então, minha expectativa em relação a ‘Novecentos’ estava nas alturas. Felizmente, foi um tiro certeiro mais uma vez. Assim como no livro que li em 2015, este de agora também é igualmente curto e poderoso, e foi por isso que embarquei na história narrada pelo trompista Tim Tooney, que nos segura pela mão em uma visita guiada pelo navio em que viveu seu amigo e famoso pianista Novecentos.

Novecentos, o músico, foi deixado ainda recém-nascido sobre o piano do salão de baile da primeira classe. Encontrado pelo marinheiro Danny Boodmann, foi batizado (utilizando um sistema muito peculiar de escolha de nome) e criado por ele na embarcação, cresceu em seus corredores labirínticos, conviveu com todo tipo de gente e desenvolveu as habilidades incríveis que citei no início do texto. Seu talento como pianista era tão grande que sua fama correu o mundo e, mesmo sem nunca ter descido do navio, foi desafiado por outro pianista de renome. Mas Novecentos não lia partituras, não seguia regras – ele tocava com o coração e com dedos leves e ágeis como colibris. E levava sua música a todos que quisessem ouvir, sem fazer distinção entre primeira, segunda ou terceira classe.

Um dia, no entanto, Novecentos conversa com um dos passageiros e esse bate-papo o toca de alguma forma. Ele decide sair do navio. Todos são pegos de surpresa, mas apoiam sua decisão. Só que na hora de descer a rampa, algo faz o rapaz travar. O que teria feito o moço mudar de ideia? Seria o medo diante de uma vida nova? De não conseguir se encaixar nessa nova realidade? De não conseguir atender às expectativas alheias? De ser apenas mais um na multidão? Enfim... muitas possibilidades. Poeticamente, ele resume assim:

“Primeiro degrau, segundo
Não foi o que vi que me parou
Foi o que não vi
Pode entender, irmão? Foi o que não vi... procurei-o mas não existia, em toda aquela destruída cidade existia tudo, exceto
Havia tudo
Mas não havia um fim. O que não vi é onde acabava tudo aquilo. O fim do mundo
Agora você pensa: um piano. As teclas iniciam. As teclas terminam. Você sabe que são 88, sobre isso ninguém pode culpá-lo. Não são infinitas, elas. Você é infinito, e dentro daquelas teclas, infinita é a música que pode fazer. Elas são 88. Você é infinito."

O texto foi escrito como monólogo a ser levado para o teatro por um ator e um diretor específicos. O próprio autor diz em uma nota inicial que não considera seu trabalho um texto teatral, embora a estrutura seja, sim, a de uma peça. Algumas pessoas não gostam muito do formato, mas a mim não incomoda. Adorei e já estou ansiosa pelo próximo Baricco!

Nota: 5/5

Este post faz parte do Desafio Volta ao Mundo em 80 Livros[Itália]Para ver a apresentação do projeto e a lista de títulos/resenhas, clique AQUI ou no banner na coluna à direita. 


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FILME: A lenda do pianista do mar

Na versão filmada, Novecentos é vivido por Tim Roth, e Pruitt Taylor Vince interpreta o trompista, que na tela se chama Max Tooney, e não Tim. Em geral, o filme segue fielmente a história do livro, com algumas mudanças para o bem e outras nem tanto.

Danny Boodmann e o pequeno Novecentos
A primeira alteração, e que faz todo sentido para manter a surpresa do desfecho, é que no filme a situação em que Max reencontra Novecentos anos depois que o trompista havia deixado o navio só é revelada no final, ao contrário do que acontece no livro, que já dava o tom do encerramento da trama logo nas primeiras páginas.

Encantando a todos no navio
A segunda modificação favorável é a introdução do personagem dono da loja de instrumentos musicais. É ao tentar vender sua trompa que Max começa a conversar com o vendedor e conta a ele a incrível história de Novecentos (no livro, o narrador fala diretamente com o leitor). Além de fazer o papel de ouvinte, a figura do lojista também ganha importância na cena final que colabora ainda mais com a nostalgia da história.

Hora do duelo
Uma das cenas mais intrigantes do livro, na qual Novecentos toca piano durante uma tempestade monstruosa que faz o instrumento deslizar de um lado para o outro no salão de baile como se dançasse uma valsa, fica ainda mais bonita na tela, ao som da trilha sonora maravilhosa de Ennio Morricone e Roger Waters. Uma obra-prima visual e musical.

Valsando pelo salão em plena tormenta
A única coisa que me desagradou foi aquela velha mania de enfiar um par romântico em toda e qualquer história. Sério, não precisava. Novecentos é um personagem rico e interessante o bastante. Não havia necessidade de apelar para paixonites baratas para acender sua chama da curiosidade. Tirando esse pequeno deslize, achei o filme ótimo. Muito bonito mesmo.

Nota: 4/5

Cena do piano:

Um comentário:

Claudia Leonardi disse...

Nem preciso dizer que estou doida para ler e para depois assistir o filme, né?!
Também AMO a escrita do Baricco e depois do seu post e da sua opinião quero ler ainda mais mais!
Adorei a resenha, Mi!
Bjks mil